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sexta-feira, 3 de junho de 2022

Guerra na Ucrânia e protecionismo alimentar

A globalização além de ter dado oportunidade a muitos países de saírem da pobreza, tal como referiu Adam Smith, com as vantagens absolutas ao nível do comércio internacional, e mais tarde David Ricardo, com as vantagens comparadas, tem permitido que muitos, mesmo que não sejam competitivos na produção de nenhum bem, continuem a especializar-se na produção daquilo que fazem de melhor. A globalização é uma mais-valia preciosa para o bem-estar mundial, mas políticas protecionistas colocam em causa este benefício económico. Todavia, cada país deve sempre assegurar educação, conhecimento, liberdade e saúde para as suas populações, independentemente do seu nível de especialização, e garantir a segurança de produtos base, tais como energia e alimentos agrícolas não processados.


A economia portuguesa é das mais abertas, logo também das mais penalizadas pelo aumento do protecionismo. Um crescente protecionismo alimentar global tem aumentado principalmente nas economias emergentes, as maiores produtoras mundiais de alimentos agrícolas, e os efeitos ameaçam espalhar-se às economias avançadas, agudizando a inflação e ameaçando a segurança alimentar global.


A guerra na Ucrânia está na origem do recente aumento do protecionismo alimentar. A Rússia é o maior exportador mundial de trigo e a Ucrânia um dos maiores. Rússia e Ucrânia respondem por mais de metade da produção mundial de óleo de girassol. A Ucrânia é o terceiro maior exportador global de milho, mas bloqueios russos nos portos ucranianos do mar Negro impedem a exportação de milhões de toneladas de cereais que permanecem armazenadas em silos na Ucrânia. Também as sanções económicas ocidentais, apesar de a Rússia esperar uma colheita quase histórica este ano, dificultam a distribuição e exportação dos cereais russos. Os portos russos para a União Europeia foram sancionados e os pagamentos dificultados. Apesar de a Rússia continuar a exportar os seus cereais, as dificuldades com logística e pagamentos causadas pelas sanções ocidentais a Moscovo são uma realidade, impulsionando os preços nos mercados internacionais de bens agrícolas essenciais como o trigo, milho e óleo de girassol. Adicionalmente, as colheitas de cereais do final do verão destinam-se em grande parte à alimentação do gado no inverno, mas as dificuldades nas cadeias de abastecimento ameaçam a alimentação dos animais, evidenciam futura escassez de carne e aumento do seu preço.


A China e a Índia são os maiores produtores mundiais de trigo e arroz, mas a maior parte das suas colheitas são para consumo interno e satisfazem as necessidades de 36% da população mundial. A possibilidade de falta de trigo nos mercados internacionais aumenta a procura de cereais alternativos como o arroz. A Índia é responsável por quase metade das exportações mundiais de arroz e não teria um substituto nos mercados internacionais se deixasse de exportar. Os cereais são a base da dieta global e a sua escassez aumenta a possibilidade de uma crise alimentar, além de elevar a inflação. Em suma, menos cereais no mercado global elevam potenciais tensões sociais, mais visíveis em países subdesenvolvidos.


Os cereais são cada vez mais valiosos e há uma propensão dos agentes económicos guardarem o que tende a valorizar. As pessoas acumulam o que é percecionado como mais escasso. É assim com moedas, metais preciosos e qualquer bem económico, numa alusão à lei de Gresham. A Malásia proibiu as exportações de frango, causando consternação em Singapura que importa um terço dessa carne de ave da região malaia. A Índia tomou medidas para conter as exportações de trigo e açúcar. A Indonésia restringiu as vendas de óleo de palma.


Os países mais pobres são mais vulneráveis ao aumento dos preços dos alimentos e à escassez, mas as economias mais avançadas não estão imunes. Quase 10 milhões de britânicos cortaram alimentos em abril em consequência do aumento do custo de vida. França emitiu vales-alimentação. Os restaurantes dos EUA diminuem o tamanho das doses, numa alusão à ‘shrinkflation’ ou ‘reduflação’, técnica utilizada num contexto de elevada inflação. O aumento dos preços nas economias avançadas afeta desproporcionalmente as famílias de menores rendimentos que gastam grande parte do seu dinheiro em alimentos.

 
A pandemia causou um recuo na globalização e a guerra na Ucrânia agudizou esse fenómeno, tornando o mundo mais inseguro e impulsionando o protecionismo, sinónimo de retrocesso económico.

PMR In VE 3 junho 2022



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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.