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quarta-feira, 4 de julho de 2018

VAI A CHINA CONSTIPAR O MUNDO?

Na China a economia abranda. Mundialmente, os protecionismos comerciais intensificam-se, nomeadamente entre os EUA e a China. O comportamento negativo dos mercados acionistas chineses tem refletido estas circunstâncias.

O principal índice chinês, o Shanghai compósito, está nos 2800 pontos, a níveis de maio de 2016, e já perde 22% desde o máximo relativo alcançado a 29 de janeiro, e abaixo 16% da média móvel de 200 dias (MA200), ou seja, este índice encontra-se, atualmente, em bearmarket (tendência de baixa). É a quarta vez que acontece desde os máximos verificados em junho de 2015. Será um bearmarket duradouro? São cada vez mais os sinais de correção dos mercados nos últimos três anos. O recrudescimento dos protecionismos tem afetado mais a China do que os EUA. Já no século XIX, David Ricardo, o célebre economista britânico de origem portuguesa, frisou, na sua teoria das vantagens comparativas, o benefício do comércio internacional.

O índice tecnológico chinês, o Shenzhen compósito, registou o seu máximo histórico nos 3157 pontos, a 12 de junho de 2015, e desde então já recuou 50%. Neste momento cota nos 1597 pontos, valores de setembro de 2015. O Hang Seng está abaixo da MA200 há uma semana.
As bolsas chinesas são as primeiras a entrar em bearmarket entre os grandes blocos económicos mundiais. Será um sinal para as restantes bolsas e economia mundial? Neste momento, a gradual aceleração da guerra comercial tem penalizado mais a China do que os EUA.
O Nasdaq100, designadamente as big tech que estão presentes em todo mundo, registaram fortes quedas na passada segunda-feira. O agudizar da guerra comercial é altamente prejudicial para estas gigantes multinacionais.

A moeda chinesa em relação ao dólar americano (USD/CNY) desceu cerca de 5% desde o máximo relativo registado em março passado. Este facto espelha não só as políticas expansionistas das autoridades monetárias chinesas, mas também o abrandamento económico e o avolumar das medidas protecionistas a nível mundial que penalizam a economia chinesa e a sua moeda. As companhias aéreas têm sido penalizadas com a queda do yuan que aumentou os custos das suas dívidas denominadas em dólares. Os promotores imobiliários têm sofrido quedas.
Um hipotético colapso do crédito na China prejudicará o sentimento. O Financiamento Social Total da China, a medida mais ampla para aferir o novo crédito, caiu, em maio para o valor mais baixo em quase dois anos. Há pouca esperança numa recuperação, já que os investidores se preparam para os efeitos secundários.
O pessimismo continua a crescer, e muitas empresas estão à beira de colapsar sob o peso das suas dívidas e várias emissões de obrigações poderão entrar em incumprimento (default).

O bearmarket nos mercados chineses pode redundar num círculo vicioso de consecutivos abrandamentos económicos e perdas nos mercados. Os agentes económicos, famílias e empresas, têm menos dinheiro devido à queda das bolsas, logo consomem menos e as empresas cotadas apresentam lucros cada vez menores e, consequentemente, as cotações caem… Este fenómeno penaliza a economia mundial. A consecutiva subida das taxas de juros por parte da Reserva Federal norte-americana, mais cedo ou mais tarde, irá ter uma repercussão negativa quer na economia dos EUA, quer nas bolsas, com os tomadores de empréstimos a terem cada vez mais dificuldade em honrar os seus compromissos. As taxas de juro de longo prazo poderão subir acima dos 3% e alcançar os 4% ou 4.5%, e sinalizar uma recessão, pressionadas também, caso os chineses necessitem, pela venda massiva de obrigações do tesouro americano por parte da China...

Paulo Rosa, In "Vida Económica", 29 de junho de 2018




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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.