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sexta-feira, 29 de maio de 2015

"Boom" no imobiliário, alerta no mobiliário

A política monetária expansionista é comum a todos os bancos centrais do mundo e Hong-Kong não é exceção. O mercado imobiliário desta região autónoma chinesa e, com menor preponderância, os ativos mobiliários têm espelhado isso mesmo. Há uma semana, assistimos à queda bastante acentuada de duas empresas da bolsa de Hong-Kong: o Goldin Group e a Hanergy TFP. Provavelmente, nas próximas semanas, assistiremos a mais casos parecidos.

O dinheiro proveniente da China, resultado de uma economia pujante nas duas últimas décadas, ou das emissões do Banco Central Chinês para estimular a economia e depreciar a moeda, tem contribuído para este "boom" imobiliário e mobiliário. Assistimos, além disso, a uma ensurdecedora guerra cambial, através de sucessivas depreciações, há vários anos, entre as principais moedas mundiais, as denominadas majors: USD, CHF, GBP, EURO, HKD, JPY e CHY.

O Goldin Group é essencialmente uma empresa imobiliária. Os preços do imobiliário em Hong-Kong e na China têm subido consideravelmente desde 2003 e quase não corrigiram na crise financeira de 2008, como se verificou, por exemplo, com o índice bolsista de Hong-Kong, o Hang Seng, que perdeu dois terços do seu valor. Estaremos, muito provavelmente, a assistir à agudização da bolha imobiliária em Hong- Kong e na China. E nalguns pontos do globo, apesar das correções significativas em 2008, os preços das casas já regressaram a patamares próximos, ou mesmo idênticos aos observados durante a crise.

Nos EUA, o índice S&P Case-Shiller20, que mede o valor do imobiliário residencial em 20 regiões norte-americanas e divulgado pela Standard & Poor's, regista, hoje, o mesmo valor de janeiro de 2008, antes da crise, e verificado também durante o ano de 2005. Nessa altura já estava perto do valor mais elevado atingido em julho de 2006. A sobreavaliação do imobiliário no Sudeste Asiático é um facto suficientemente debatido nos mercados há mais de 3 anos.

A Goldin Group, à cotação de 35 HKD (dólares de Hong-Kong), no dia 20 de maio, apresentava um PER (Price Earning Ratio) à volta dos 40, relativamente elevado. Um PER de 20, que se verifica agora devido à descida da ação, é aceitável. E com a correção dos preços das casas, o PER ainda vai baixar mais, mas ajustar-se-á proporcionalmente à provável queda da cotação da ação da empresa.

A yield das Obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos de Hong Kong está baixa, nos 1,65%. No entanto, comprar ações com rentabilidades – "dividend yields" – de 2% ou 3% num ambiente de forte subida do mercado imobiliário na última década poderá ser pouco aconselhável. As quedas acentuadas dos últimos dias corroboram isso mesmo.

Estamos a falar de duas empresas, a Goldin Financial e a Hanergy, que no dia 20 de maio tinham, cada uma, uma capitalização bolsista de quase 50 mil milhões de dólares americanos, mais de metade da capitalização do PSI20 e cinco vezes superior à da Galp Energia.

A Hanergy é uma empresa tecnológica que quadruplicou de preço em bolsa em apenas dois meses e perdeu praticamente todo esse valor em apenas uma sessão, no passado dia 20. O presidente da empresa apostou na queda, através de posições curtas, antes destas terem registado a forte descida na bolsa de Hong-Kong. Atualmente encontra-se suspensa. Tem um PER de 35, significativamente alto.

No que concerne às duas empresas mencionadas, para já, trata-se de um caso isolado e não se vislumbra qualquer ligação ou repercussão nos principais mercados internacionais. Mas não serão caso único em Hong-Kong e na China. É um alerta importante que não devemos menosprezar. O "boom" do imobiliário, na Ásia e noutras geografias, pode ser o início da próxima crise das bolsas mundiais. 

In Vida Económica, 29 de maio de 2015.

Paulo Monteiro Rosa, economista.




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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.