Since December 25th, 2010

Translate

domingo, 17 de março de 2013

O resgate à banca cipriota. Falta muito por explicar...


O caso cipriota. A estória está muito mal contada. A História corroborará isso..

Depósitos à ordem, conta-correntes, não são empréstimos aos bancos, apesar de incorretamente aparecerem no balanço dos bancos. Como o próprio nome refere é dinheiro que está sempre disponível, logo eu posso levantar passados alguns segundos de depositar e o banco não pode emprestar esse dinheiro a ninguém, o dinheiro deveria estar parado. No entanto o nosso sistema financeiro funciona na base de reservas fraccionárias (uma fracção do dinheiro é retida, denominada de reserva compulsória, legal e o resto fica disponível para o que o banco entender: emprestar, investir por conta própria,...) e esse dinheiro é emprestado e não estará, totalmente, disponível caso haja uma corrida aos bancos ("bank Run"). Na zona euros a base monetária (M0) (moeda em circulação, é de cerca de 850 mil milhões de euros, e as reservas legais, compulsórias, quando é feito determinado depósito, que os bancos mantêm junto do BCE é de cerca de 50 mil milhões de euros), ou seja a base monetária, notas de bancos, moeda Central ou moeda de 1ª ordem, como lhe queiram chamar, nomenclaturas pouco me interessam, representam 900 mil milhões de euros, a restante massa monetária ascende a 9 biliões de euros (contando o agregado monetário M2), que representa o PIB da zona euro e mantém equilibrada a equação da teoria quantitativa da moeda, com moeda=PIB, na qual a velocidade de circulação de moeda acaba por ser igual a 1. O multiplicador monetário é de cerca de 10. O M2 é 10 vezes superior às notas de banco existentes.
O M1 representa pois mais de 4biliões, ou seja os DO, as contas correntes representam mais de 3 biliões de euros. Se as pessoas quisessem levantar e transformar este dinheiro em notas de banco, moeda papel, só haveria 900 mil milhões de euros, ou seja menos de 20%. Seria uma catástrofe uma corrida aos bancos, não controlada, devido à existência de reservas fraccionárias nos Do (depósitos à ordem). A quase-moeda (DP, são quase 5 biliões euros. logo M2= M1(Depósitos à ordem + moeda em circulação)+ DP. Os DO e os DP são moeda crédito ou de 2ª ordem.

Nos bank run's não funciona a lei dos grandes números, como nos seguros e em muitas actividades económicas e científicas. Quando há pânico e uma pessoa vai a correr levantar o seu dinheiro para moeda de 1ª ordem, notas de banco, são 100% das pessoas que acorrem aos bancos. Não é como as probabilidades da ocorrência de acidentes de automóvel, ou de inundações (onde o prémio a pagar é muito elevado). A probabilidade das pessoas correrem para transformar o seu dinheiro em notas quando existe pânico é simplesmente de 100%, ponto final.

Os DO ou contas-contas correntes são totalmente diferentes dos DP (depósitos a prazo), que são quase moeda. Os DP são realmente empréstimos aos bancos, mas hoje em dia não funcionam como tal, e boa parte, porque o dinheiro tem que estar cativo. Temos muitos falsos DP's, onde o dinheiro pode ser desmobilizado com a perda total ou parcial dos juros antes dos vencimentos desse depósitos. Os DP's têm que estar permitir um casamento, quase perfeito, entre a poupança e os créditos concedidos. Um depósito a prazo a 3 anos deverá garantir um empréstimo a 3 anos para determinado investimento e jamais esse depósito pode ser levantados durante esses 3 anos. O segredo de manter um sistema financeiro saudável, nomeadamente ao nível da banca, é manter as maturidades "casadas" entre a compra de crédito pelos bancos (DP's) e a venda de crédito (empréstimos concedidos pelos bancos).

Então porque é que a estória do resgate à banca do Chipre está mal contada e muita tinta ainda vai correr. São todos as contas de DO e DP que são abrangidas? Ou são apenas os DP, porque estes é que são realmente empréstimos aos bancos? São todos os bancos?
O dinheiro faltar nas ATM (caixas multibanco) é normal porque as caixas não têm dinheiro vivo, notas de banco infinitas.
São apenas os depósitos dos russos, dos gregos e dos residentes com ligações menos transparentes?
Chipre é um paraíso fiscal e os seus depósitos representam cerca de 7 vezes o seu produto. E por causa disso aplica-se um imposto? É uma proporção desmesurada? então que dizes do Luxemburgo onde a dívida externa atinge os 4000% do PIB, ou seja 2 biliões de euros, constituídos por depósitos estrangeiros que aproveitam o IRC de 0% na banca luxemburguesa e os depósitos são 50 vezes superiores ao PIB!!! Logo isso não é razão para o Chipre.

Uma senhora, com o seu trabalho árduo nas limpezas, tem um aforro de 10.000 euros e que por acaso teve "penhorar" para conseguir um empréstimo de 15.000 euros para a sua filha poder tirar o seu curso. esta senhora fica sem 700 euros porquê? A estória está mal contada... Não é assim. Verão...

É premiado o crédito, o consumo, a política keynesiana no seu total êxtase em detrimento do aforro, da poupança real que dará resguardo e "munições" para o Investimento principal motor de qualquer economia e só depois vêm as exportações. E não é o consumo, como muitos economistas apregoam por esse Portugal e mundo fora...

O mecanismo do resgate funciona da seguinte maneira: Os detentores dos depósitos (não sei se DP ou DO ou os 2 !!??!!) recebem acções dos bancos onde têm o seu dinheiro depositado pelo montante igual ao do corte da sua poupança. 100.000 euros, fica com 9900 euros de acções do banco. mas o banco é uma sociedade aberta ou fechada. As suas acções estão disponíveis para transaccionar em bolsa logo a seguir ou não estão estão dispersas em bolsa e só através da negociação em balcão, onde o seu valor é muito subjectivo!

Faz todo o sentido. Se os bancos estão com problemas que sejam os seus accionistas a resolvê-o e por aí fora, mas só em último lugar os depositantes. Claro que os depositantes devem distinguir o trigo do jóio e colocar o seu dinheiro em bancos mais transparentes. Mas se no Chipre não existem bancos cristalinos, onde a senhora da limpeza vai colocar o seu dinheiro?

Este resgate ao Chipre é idêntico ao nosso BPN à escala de toda a banca. O BPN deveria ter falido, porque os lucros são para ser privatizados e logo não poderemos socializar os prejuízos. Muitos foram à procura de juros altíssimos no BPN e receberam esses juros à custa do contribuinte português.

Os problemas da banca resolvem-se facilmente. Primeiro os accionistas são chamados para resolver o problema do banco, por exemplo do BPN e respondem todos os seus bens. Não chegam? Vêm os detentores de dívida subordinada, até chegar aos detentores de dívida sénior e o problema de todos os bancos americanos, europeus, dos BPN e agora do Chipre estavam resolvidos. Os detentores de dívidas passariam a accionistas  e não seria necessária qualquer dinheiro dos contribuintes. Se não chegasse seriam chamados os depositantes para accionistas. Não sei se este processo foi assim elaborado e estamos a assistir a uma correcção que já deveria ter sido feita há muitos anos atrás. E não teria sido necessário nem um tostão dos contribuintes para sanear o BPN e a restante banca europeia...

No entanto o problema da banca, apesar de alguns aperfeiçoamentos, continua muito longe de se resolve. Os bancos Centrais continuam a manipular as taxas de juros e as reservas fraccionárias continuam a permitir uma alavancagem dos bancos insustentável no longo prazo, os desfazamentos temporais entre poupanças, depósitos e os empréstimos dos bancos, Investimentos. Os bancos a investirem em vez de emprestarem. Os bancos centrais a terem uma suoervisão descuidada. No acordo da banca plasmado no Basileia III existem já alguns progressos, como é o caso dos buffer's de capital e o seu cariz contracíclico. Quanto existe expansão económica, os bancos devem refrear os seus empréstimos para não "aquecerem" mais o ciclo, mas o que acontece é que é a fase onde os bancos mais emprestam dinheiro (de 2003 a 2007), com o buffer anticíclico iria impedir isso e guardar dinheiro para quando estivéssemos em recessão e os bancos não querem emprestar dinheiro, mas agora com um buffer guardado da expansão económico já poderão fazer isso. Os rácios de solvabilidade medidos pelos core tier1 por exemplo, mantinham-se inalterados durante os vários ciclos mas os bufer's seriam mais elevados (chegando até 2,5 pontos percentuais a mais no core tier1 nos períodos de recessão e diminuiriam para 0% na expansão). Mas o que se assistiu no princípio do ano com o abrandar da crise financeira na Europa e a nível mundial foi deixar cair em parte as ideias iniciais do Basileia III. O sistema financeiro não tem emenda...

Os mercados financeiros, quer no mercado monetário e especificamente no cambial, à cabeça o euro/dólar e no mercados de capitais, nomeadamente as acções a caírem e as obrigações dos periféricos também e uma corrida desenfreada às Bund's alemãs. tem que alguém vir a terreiro explicar esta estória. tal como eu estou a tentar fazê-lo. Mas claro que as minhas palavras leva-as os vento...

Ou os meandros deste resgate são corrigidos, que acho que é o que vai acontecer e nem sequer está no espírito dos alemães e por isso digo e repito que a estória está mal contada, ou vos garanto que a moeda que dá pelo nome euro acabou hoje...

Paulo Monteiro Rosa, economista, 18 de Março de 2013

6 comentários:

  1. Parabéns pela profundidade com que tratou o assunto.

    Já agora:

    https://www.youtube.com/watch?v=kFNZYSLdah8

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado pela apreciação. E agradecido pelo link, Janine toca no ponto fulcral da regulação... Muito bom.

      Eliminar
    2. Caríssimo Paulo,

      Como sempre uma excelente exposição.
      Não sei se teve oportunidade de ler este artigo publicado no Viriatos;
      Vamos ter um crash nas bolsas?

      http://viriatosdaeconomia.blogspot.com.br/2013/03/vamos-ter-um-crash-nas-bolsas.html#c3420485459483130205

      Qual a sua opinião?

      Um abraço.

      Eliminar
    3. Olá Vivendi,

      Resposta segue para o seu email.

      Abraço,
      Paulo

      Eliminar
  2. Viva Paulo Rosas. Segue o meu e-mail: vivendijr@gmail.com

    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Não recebi o seu e-mail e creio que não está a receber os meus tb.

    Boa páscoa.

    Abraço

    ResponderEliminar

Seguidores

Economista

A minha foto
Naturalidade Angolana
Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.