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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A Queda de um Anjo

Soubemos há poucos dias que os EUA têm a intenção de multar o Deutsche Bank (DB) em 14 mil milhões de dólares para dar como terminado um processo ligado à crise do “subprime”. O banco alemão, tal como outros, é acusado de ter vendido, antes da crise financeira de 2008, créditos imobiliários de elevado risco, os denominados RMBS (Residential Mortgage-Backed Security). Em abril o banco norte-americano Goldman Sachs pagou uma multa de 5 mil milhões de dólares num caso semelhante. O montante de 14 mil milhões de dólares equivale a quase 80% do valor em bolsa do DB, cerca de 8% do PIB português e ronda o valor atual das reservas de ouro portuguesas. O banco alemão já colocou de parte 2 mil milhões de dólares, mas diz que não tem intenção de pagar o total da dívida.

Desde o dia 16, em apenas três dias, as ações do DB perderam 14%, mas o mais impressionante foi a queda de 15% das obrigações perpétuas, batendo nos mínimos de fevereiro. O Deutsche Bank reportou, a 28 de janeiro, um surpreendente prejuízo de 6.8 mil milhões de euros relativos aos resultados de 2015 como consequência dos custos com litígios e reestruturações. Nas duas semanas seguintes, as obrigações perpétuas caíram 20% de 88 para 70 e as ações sofreram quedas na ordem dos 22%. Após algum alívio, e correção em alta, os títulos do DB voltaram às quedas mais acentuadas depois de ter sido divulgado o chumbo do banco alemão nos testes de stress feitos nos EUA, a par do Santander.



A elevada alavancagem em derivados do Deutsche Bank é mais um ingrediente para uma situação bastante delicada quer para o banco, para a Alemanha e também para o sistema financeiro mundial. Alguma coisa a Alemanha terá que fazer se quiser salvar o DB.

Segundo um relatório do FMI no final de junho, o Deutsche Bank é o banco com o maior risco sistémico do mundo e afirma mesmo que no exterior supera o risco da própria Alemanha. As taxas de juro muito baixas, quase de zero ou mesmo negativas nalguns prazos, alicerçadas numa política monetária fortemente expansionista do Banco Central Europeu (BCE) potenciam também, e significativamente, esse risco. Na lista apresentada pelo FMI e encabeçada pelo Deutsche Bank, seguem-se o HSBC, o maior banco da Europa, e o Crédit Suisse.

Estará todo o sistema bancário mundial depauperado e a precisar de um resgate? Muito provavelmente, sim. A banca chinesa está, de dia para dia, numa situação cada vez mais difícil. Ainda esta semana vimos, através da divulgação do BIS, o significativo “gap” entre o crédito e o PIB chineses, que atinge os inimagináveis 30.1%. Acima de 10% já se está numa situação bancária bastante delicada. Os maiores bancos europeus não param de surpreender negativamente os investidores. Também os bancos da Europa mediterrânica, nomeadamente em Itália e Portugal, o BCP e o Monte Dei Pachi de Siena, com um Texas Ratio bastante elevado, espelham uma preocupante carteira de crédito malparado. O risco de uma crise do sistema bancário é bastante plausível…

Publicado In "Vida Económica" a 23 de setembro
Escrito a 20 de setembro



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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.