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sexta-feira, 4 de março de 2016

10 de março – o dia D de Draghi

O manual do banqueiro central permanece idêntico há mais de um século: "(i) estamos em crise? Não. Então vamos criar mais dinheiro, acelerar a expansão económica e criar bolhas que levam a novas crises entrando num círculo vicioso."; "(ii) estamos em crise? Sim. Então vamos imprimir mais dinheiro para resolver o problema. Funcionou? Não. Então imprime-se mais dinheiro, entrando num ciclo vicioso do qual ninguém sabe atualmente como sair." A Zona Euro encontra-se nesta situação, tal como o Japão, este há mais de 20 anos. O que se pode esperar da reunião do Banco Central Europeu (BCE) da próxima quinta-feira? Uma atitude pró-inflacionista mais enérgica do que aquela que foi tomada até aqui?

A inflação da Zona Euro em fevereiro foi negativa de 0.2%, quando se esperava (há já um ano) que se aproximasse de 2%. O IFO alemão, que mede a confiança dos empresários, caiu pelo terceiro mês consecutivo. O índice ZEW, que mede a confiança dos investidores germânicos, desceu para níveis de outubro de 2014, a atividade industrial da Zona Euro, nomeadamente nas duas maiores economias, Alemanha e França, atingiu mínimos de um ano e encontra-se quase em estagnação.

Fora da Zona Euro as notícias também não são animadoras: a produção industrial chinesa cai pelo sétimo mês consecutivo para mínimos de 2009 e a atividade dos serviços cresce ao ritmo mais lento desde dezembro de 2008. Os dados do mercado de trabalho de trabalho nos EUA ainda se encontram resilientes, mas pode ser apenas uma questão de tempo até vermos os números do emprego a fraquejar. Apesar da subida das taxas de juro de referência da FED em dezembro, para 0,5%, o movimento de subida pode ser travado. Para alguns analistas não seria surpresa se fosse até revertido. A queda dos mercados acionistas em janeiro, um pouco debelada em fevereiro, pode travar a política contracionista da FED e acelerar a política inflacionista do BCE.

A 3 de dezembro, o BCE desceu a taxa depósito em 10 pontos base, para -0,30%, defraudando as expectativas dos investidores que esperavam que subisse as compras mensais de títulos nos 60 mil milhões euros. Neste momento existem alguns analistas que apostam numa subida de 66% para 100 mil milhões de euros…

Em boa verdade o Quantitative Easing (QE), iniciado há um ano, não conseguiu pressionar a inflação para níveis próximos dos 2%, e apenas teve repercussões na subida do mercado de capitais, ações e obrigações, durante alguns meses, quando um dos objetivos era fazer chegar liquidez à "economia real". Só que muitas empresas não necessitam do novo dinheiro criado pelo BCE porque as suas capacidades já se encontram no ótimo de utilização. Por outro lado, as que necessitam de capital têm balanços que não inspiram confiança à banca que só empresta mediante garantias que muitas empresas não podem dar.

Há analistas, menos convencionais, que especulam sobre a possibilidade do BCE ceder crédito diretamente às empresas, sem passar pelos bancos comerciais. O BCE pode resolver o problema, temporariamente ou definitivamente, de algumas empresas, mas tudo depende se estas estão em setores de vanguarda ou se estamos a manter artificialmente em atividade empresas sem viabilidade económica. Se o BCE optar por uma medida deste tipo, estará a enviesar o investimento e a poupança, que perde valor, gerando desequilíbrios que serão ajustados mais tarde.

Em suma, os bancos centrais têm sempre a mesma estratégia quer estejamos em crise ou em crescimento económico: criar mais dinheiro, mais moeda-central. Ainda existe uma forte ligação entre os bancos centrais, apesar de serem independentes, e os Estados. A cedência e absorção de dinheiro é realizada com títulos da dívida pública como colateral. Os Estados em vez de se endividarem deveriam cortar na despesa pública, como já foi referido pelo BCE, e as famílias deveriam ter mais rendimento proporcional aos ganhos de produtividade e de competitividade dos bens transacionáveis que as suas economias exportam

Paulo Monteiro Rosa, economista, In "Vida Económica" 4 de março de 2016



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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.