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sexta-feira, 9 de junho de 2023

Mais uma vez a iliteracia financeira…

 


O IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, anteriormente Instituto de Gestão de Crédito Público) é a entidade pública a quem compete gerir “… a tesouraria, o financiamento e a dívida pública…”, recorrendo para tal aos mais diversos instrumentos de dívida pública, desde as obrigações e bilhetes do tesouro aos certificados de aforro, este últimos “… instrumentos de dívida criados com o objetivo de captar a poupança das famílias.”. Todavia, o IGCP tem como objetivos a “… minimização do custo da dívida numa perspetiva intertemporal, de acordo com as estratégias de risco definidas pelo Governo.” e a “…redução dos encargos financeiros do Estado”. Ou seja, o objetivo do IGCP é então o de minimizar o custo do crédito público, salvaguardando o orçamento do Estado e os custos para os contribuintes, recorrendo aos mais diversos mecanismos de financiamento para suprir as necessidades financeiras do Estado português, minimizando objetivamente o custo desses empréstimos obtidos.  

Em boa verdade, o rendimento dos bilhetes do tesouro a três meses é atualmente de 2,79%, o das obrigações do tesouro a 2 anos é de 2,69% e a 10 anos de 2,99%. A taxa de juro de 3,50% associada aos certificados de aforro da “série E” é substancialmente superior à remuneração dos restantes instrumentos de dívida e com o prémio de permanência essa remuneração chega aos 4,50%. Adicionalmente, os certificados de aforro são instrumentos de curto prazo.  Finalmente, no último relatório mensal do IGCP, o de abril, as necessidades de financiamento do Estado português eram de € 24,8 mil milhões para 2023, mas a subscrição de certificados de aforro já havia ultrapassado os € 11 mil milhões, apenas nos primeiros quatro meses do ano, colocando em risco a diversificação dos mecanismos de financiamento, a eficiente distribuição pelas várias fontes de financiamento e a otimização do custo do crédito público.

Na qualidade de entidade que gere responsavelmente os empréstimos obtidos do Estado português, o IGCP deve evitar demasiada exposição a um determinado instrumento, procurando também minimizar os custos. Atualmente, a dependência dos certificados de aforro é já relevante e os juros associados a este instrumento de dívida de curto prazo são mais elevados do que as fontes de financiamento de longo prazo, quando deveria ser o contrário, porque o risco cresce à medida que aumenta o horizonte temporal. É certo de que o maior incentivo à subscrição de certificados de aforro é resultado do aumento significativo das taxas de juro pelo BCE, ditado pela elevada inflação. Mas imaginemos que a inflação da Zona Euro abrandava substancialmente no segundo semestre do ano ou em 2024 e associada a essa desaceleração dos preços estaria também um ambiente económico recessivo, então o BCE poderia iniciar sucessivos cortes das taxas de juro, incentivando o resgate dos certificados de aforro, colocando, desta forma, em causa o financiamento público do Estado português.     

Os certificados de aforro são, em primeiro lugar, um mecanismo de financiamento do estado e o incentivo à poupança não é da tutela do IGCP. Além disso, os portugueses que não conseguem poupar, alguns a braços com juros mais elevados no seu crédito à habitação, seriam duplamente penalizados, tendo que financiar, via impostos, juros mais elevados.

O mais importante estímulo e contributo à poupança passaria, com certeza, pelo aumento substancial da literacia financeira dos portugueses. Há falta de cultura financeira, sendo as bolsas percecionadas pelos portugueses como casinos. No entanto, os mercados de capitais têm uma vasta panóplia de instrumentos capazes de suprirem cabalmente as necessidades das poupanças dos portugueses, tendo mais vantagens numa ótica de longo prazo. Por exemplo, o índice acionista norte-americano S&P 500 têm o atual formato de 500 empresas desde 4 de março de 1957, replicando satisfatoriamente a economia dos EUA, registando um retorno anual médio nominal desde essa data de 10,13% e real de 6,26%. É um índice composto por 11 setores de atividade, corroborando, deste modo, uma diversificação aceitável da maior economia global. Devem também os investidores diversificarem os seus investimentos geograficamente, minimizando ainda mais o risco da sua carteira. E se há alguns anos o acesso a ativos financeiros internacionais era mais difícil, hoje os portugueses têm facilmente acesso a fundos transacionados em bolsa (um ETF, exchange traded funds), mesmo para pequenos investimentos, capazes de replicarem o S&P 500, o Nasdaq 100, o Stoxx 600 ou o MSCI World, podendo também diversificar o seu aforro em instrumentos de dívida pública, desde as obrigações aos bilhetes do tesouro, bem como investir em obrigações de empresas, em fundos imobiliários, em moedas, em metais preciosos e nas mais diversas mercadorias (desde o petróleo e o gás natural aos metais industriais e aos produtos agrícolas). A oferta é atualmente muita vasta, sendo o recurso a profissionais habilitados uma das decisões mais acertada.

PMR In VE 9 junho 2023



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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.