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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Ouro reserva de valor, dólar unidade de conta?

Será este o ambiente perfeito para o ouro se afirmar no atual contexto monetário e cambial e substituir, em alguns aspetos, algumas das principais moedas fiduciárias mundiais? Na fase de maior pânico de vendas em meados do mês de março, quando todos os títulos caíam, desde ações a obrigações, passando pelos REIT e pelo ouro, tendo o dólar norte-americano sido o grande refúgio por excelência.

Num momento de agudizado pânico no mercado, foi o dólar o refugio e não o ouro. O metal amarelo chegou mesmo a perder cerca de 10%, enquanto a moeda fiduciária dólar, moeda dominante há cerca de 100 anos, registou a maior procura dos últimos anos. A preferência por liquidez foi uma característica marcante no mercado.

Nos pagamentos, os agentes económicos mantêm-se muito fiéis à moeda fiduciária suportada pelo crédito concedido e débito tomado, em detrimento das dificuldades de pagamento com ouro físico.

Houve também uma considerável subida nas "margin calls". Em março, a procura de dólares foi significativa por parte de todos os investidores, e, atualmente, continua a ser, nomeadamente pelos países emergentes.

O índice do Dólar (Dollar Index) atingiu os 103 pontos, máximos dos últimos anos, aquando dos mínimos dos mercados acionistas a 16 de março. Hoje, está nos 97, perante o aumento do "Risk-On", do apetite pelo risco, dos máximos históricos das bolsas.

Todavia, como reserva de valor, o ouro poderá ir tomando o lugar do dólar à medida que o balanço da Reserva Federal norte-americana vai aumentando, o que acontece há décadas, e está bem espelhado na escalada da cotação do ouro, que quase decuplicou nos últimos 20 anos, quando cotava à volta dos 200 dólares por onça, e hoje ronda os 1700 dólares. Numa alusão à famosa lei de Gresham, em que a má moeda expulsa a boa moeda da circulação, e esta última é retida para reserva de valor, também o dólar expulsa o ouro de circulação, enquanto o metal amarelo é guardado como reserva. As características dos pagamentos também impelem a moeda fiduciária para pagamentos, pois o ouro físico dificulta os pagamentos. Devido às taxas de juro de zero, o ouro, que não gera renda, consegue mais facilmente competir com as principais moedas fiduciárias.

Mas podem ser criados certificados bancários do ouro que temos depositado ou guardado. Mas esse facto está na génese da moeda fiduciária. Mais tarde voltará tudo ao mesmo?! É certo que os pagamentos eletrónicos são cada vez mais utilizados e podem ser suportados por reservas de ouro, caso haja um colapso da principal moeda fiduciária do mundo. E os pagamentos de certas atividades ilícitas que não deveriam existir? A moeda papel ou mesmo o ouro são excelentes no cumprimento dessa função, facilitando essa forma de pagamento, e há quem refira que as moedas virtuais, nomeadamente o bitcoin, também desempenham facilmente essa função.

Mesmo assim, não é ouro, mas obrigações que os investidores desejam. Compram a nova emissão de obrigações da PayPal cujo cupão é de 3,25%, classificação de crédito de BBB, e maturidade 2050. Como o pioneiro da transferência de dinheiro online se sairá nos próximos 30 anos? O comprador de hoje está a ser compensado por esses riscos? O ouro pode ter um recorde milenar de serviço monetário honroso, mas são os preços das obrigações que estão em máximos históricos. Os investidores desejam que os preços dos seus ativos subam, e o "quantítative easing" responde a essa necessidade.

A história não pode prever exatamente o resultado da criação sem precedentes de dinheiro por parte da Reserva Federal, mas é indiscutível a crescente fragilidade do papel-moeda perante os recordes de "impressão monetária", do aumento considerável dos vários agregados monetários, desde a massa monetária medida pelo Ml ou pelo M2, e o crescimento do balanço do banco central norte-americano, e do BCE, BoJ, BoE, BNS, e ainda mais significativo nos bancos centrais dos países emergentes.

Porém, a moeda fiduciária goza da obrigação de aceitação generalizada como meio de pagamento e da imposição pelo Estado, das quais o ouro não beneficia e, em boa verdade, já houve períodos da História em que os Estados proibiram mesmo a posse de ouro. Em suma, o risco legal e regulatório também tem uma palavra a dizer. 

Paulo Rosa, In Vida Económica, 5 de junho 2020


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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.