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sexta-feira, 17 de março de 2023

Bitcoin resiliente na atual conjuntura bancária

 



Depois do encerramento do Silicon Valley Bank (SVB) e do Signature Bank nos EUA, na Europa, o segundo maior banco da Suíça, o Credit Suisse, perdeu cerca de um quarto do seu valor em bolsa na quarta-feira, arrastando novamente todo o setor bancário global, nomeadamente europeu e norte-americano. Enquanto isso, a bitcoin valoriza cerca de 25% desde o colapso do SBV, mantendo-se nesta quarta-feira resiliente diante do contexto adverso em toda a banca europeia, após o maior acionista do Credit Suisse, o banco da Arábia Saudita, Saudi National Bank, detendo 9,9% do banco suíço, referir que não fornecerá mais ajuda financeira ao banco, alegando motivos regulatórios que limitam a sua exposição a 10%.

Nos últimos dias, os investidores procuram incansavelmente ativos de refúgios, distanciando-se dos títulos ligados ao setor bancário. O flight to quality nos mercados financeiros tem sido uma realidade desde quinta-feira, dia 9 de março, aquando dos primeiros sinais de dificuldades crescentes no SVB. A fuga para a qualidade dos ativos ocorre quando os investidores em conjunto começam a alterar a alocação de ativos de investimento mais arriscados para outros mais seguros, por exemplo, trocando ações por obrigações. As remunerações das obrigações dos tesouros europeu e norte-americano têm descido consideravelmente nos últimos dias, sinalizando uma valorização dos títulos de dívida pública, desempenhando o seu habitual papel de um dos melhores ativos de refúgio. Entretanto, o dólar norte-americano, talvez o melhor ativo de refúgio de curto prazo, quando os investidores têm como principal preocupação a liquidez, tem tido um comportamento errático, desvalorizando cerca de 2% contra o euro nos dias de colapso dos dois bancos norte-americanos, mas recuperando essa perda quando a crise bancária atravessou o Atlântico, alcançando a banca helvética, nomeadamente o Credit Suisse. Na quarta-feira, o franco suíço também esteve penalizado face ao dólar, mas ganhou quase 1% ao euro, sinalizando receios dos investidores quanto a um eventual contágio à banca da Zona Euro.     

Também o ouro tem sido um cabal porto seguro nos últimos dias, valorizando quase 120 dólares por onça desde o dia 9 de março, de uma cotação de 1810 dólares/onça até aos 1930 dólares. A descida das taxas de juro, sobretudo dos rendimentos do tesouro, a par do milenar atributo do ouro, como uma reserva valor de referência em momentos de forte incerteza, têm impulsionado o valor do metal amarelo.

Os índices acionistas têm registado perdas significativas nos últimos dias, especialmente o setor bancário. Entretanto, no atual contexto de desvalorização das ações, o setor tecnológico tem-se mantido relativamente estável, com perdas ligeiras, em parte devidas talvez às margins calls de carteira alavancadas (suportadas por crédito, ou seja, dinheiro emprestado) penalizadas pela significativa descida dos títulos da banca. Quando uma carteira suportada por empréstimo desvaloriza significativamente, por exemplo se tiver exposição a ações da banca, e caso o cliente não provisione a conta, todos os títulos em carteira são vendidos ao mercado, independentemente da classe de ativo ou setor. 

O setor tecnológico é muito sensível às taxas de juro e a procura dos investidores por duration é bem visível nos últimos dias. Assim sendo, este é um dos principais fatores que corrobora atualmente a resiliência da bitcoin, confirmando mais uma vez a principal criptomoeda global como um ativo tecnológico, sendo bastante sensível à evolução dos juros. Outro fator que não deve ser descartado, podendo justificar também a valorização da bitcoin, talvez seja a perceção dos investidores de um aparente descrédito no regime de reservas fracionárias subjacente ao atual sistema bancário. E no seio das principais criptomoedas, especificamente as de maior capitalização, são muito poucas as que valorizam nos últimos dias, sendo a bitcoin a que mais ganha, quase o dobro da valorização da Ethereum. A principal rival da bitcoin ganha cerca de 15% desde o colapso do SVB. Entretanto, no universo de 10 mil criptomoedas, apenas cerca de 100 valorizam desde quinta-feira, dia 9 de março.

Os mercados acionistas têm estado nervosos nos últimos dias, penalizados pelo setor bancário, mas, no entanto, o mercado de taxas de juro de muito curto prazo norte-americano mantém-se calmo. A overnight (taxa de juro diária) no mercado de repos do dólar reflete a serenidade de um dos principais instrumentos que lubrificam todo o sistema monetário, bancário e a economia em geral. Ou este indicador, que tem sido fiável nos últimos anos, perdeu a sua fiabilidade ou a normalização regressará nas próximas semanas. 

Nota: escrito em 15 de março

Entretanto, de 8 a 15 de março a Reserva Federal dos EUA aumentou as reservas bancárias em 440 mil milhões de dólares e, ainda no passivo do balanço do banco central dos EUA, a rubrica reverse repos diminuiu 140 mil milhões de dólares. Ou seja, na última semana a Fed imprimiu 440 mil milhões de dólares e o seu balanço aumentou cerca de 300 mil milhões de dólares de 8,342 para 8,639 biliões de dólares, apagando mais de 3 meses de Quantitative Tightening.

Porém, não se trata de um Quantitative Easing, mas de um empréstimo, tendo em conta que as rubricas títulos do tesouro e títulos garantidos por hipotecas (MBS) no ativo da Fed não se alteraram. Esta liquidez manteve calmo o mercado monetário diário (repos), tendo a taxa overnight subido apenas ligeiramente de 4,55% para 4,58%, mantendo-se dentro do atual intervalo das Fed Fund Rates de 4,50% a 4,75%.

PMR in VE 17 março 2023




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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.