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sexta-feira, 31 de março de 2023

Contas nacionais: PIB e inflação em Portugal

 

                                   

O crescimento do PIB português em 2022 foi em grande medida alicerçado pelo consumo privado, permanecendo o consumidor nacional resiliente nos primeiros nove meses à medida que os preços foram subindo e as famílias suportando a inflação mais elevada. A melhoria das exportações, em parte impulsionadas pelo crescentes números do turismo em Portugal, também suportaram o crescimento da economia nacional em 2022. No entanto, no último trimestre do ano passado o consumo privado retraiu-se, tendo o investimento melhorado ligeiramente, depois de cair durante os primeiros três trimestres do ano, contribuindo para o crescimento do PIB no quarto trimestre. Entretanto, as exportações continuaram a mostrar resiliência no quarto trimestre, registando um aumento em todos os trimestres do ano passado, sobretudo baseadas no setor do turismo, mas as importações também cresceram, em grande medida devido à deterioração dos termos de troca, impulsionadas pelas preços mais elevados dos preços dos combustíveis. No entanto, houve uma ligeira melhoria no último trimestre, ou seja, uma queda das importações nos últimos três meses do ano relativamente ao terceiro trimestre, refletindo as sucessivas quedas dos preços do petróleo e do gás natural nos últimos meses de 2022. Em suma, no último trimestre do ano passado o crescimento do PIB foi em grande medida suportado pelo investimento e pelo turismo, mas a alta dos juros penaliza gradualmente o rendimento disponível, e, consequentemente, o consumo privado, sendo a principal a ameaça ao crescimento económico em 2023.

A rápida subida das taxas de juro tem deteriorado cada vez mais o rendimento disponível das famílias, penalizando o consumo privado. Os bancos centrais tentam com a alta dos juros travar a inflação, não só diminuindo a procura, mas também incentivando a poupança. No quarto trimestre do ano passado, os certificados de aforro já apresentaram rentabilidades à volta dos 3% e alguns bancos já ofereceram taxas de juros capazes de cativar novos depósitos, estimulando a poupança, abrandando deste modo o consumo, sobretudo de bens duradouros.

A contínua recuperação das contas externas não foram apenas resultado do aumento das exportações, mas também fruto da descida das importações. E se as importações diminuíram devido à deterioração do rendimento disponível e ao incentivo à poupança, as exportações de serviços melhoram, em grande medida, devido ao incremento do turismo. Portugal é geograficamente um país periférico na Europa, bem afastado do atual cenário de guerra na Ucrânia. O crescimento do turismo português no ano passado, um dos setores mais importantes da economia nacional, poderá ter sido beneficiado pelo nosso afastamento geográfico da guerra na Ucrânia, sendo Portugal uma cabal alternativa ao turismo no leste europeu.

Entretanto, apesar da descida dos preços da energia, contribuindo para uma desaceleração da inflação em Portugal, o aumento do índice de preços no consumidor tem-se generalizado e a ameaça tornar-se cada vez mais persistente. À medida que há um restabelecimento nas cadeias de abastecimento, uma melhoria do lado da oferta, e os preços da energia caem, a inflação elevada estará cada vez mais dependente da procura. Haverá uma eventual espiral salários/inflação a alimentar o atual nível elevado de preços? Se não são atualmente os salários que estão a impulsionar os preços, serão, com certeza, os juros, rendas e lucros (calculando o PIB na ótica do rendimento). Em boa verdade, o PIB nominal português cresceu 11,5% no ano passado, cerca de 25 mil milhões de euros, existindo deste modo mais dinheiro na economia. Na realidade, “inflação alimenta inflação” e há talvez quem deseje que a alta dos preços se mantenha por mais alguns trimestres para “endireitar as suas contas enfraquecidas na última década… 

A inflação na Europa, incluindo Portugal, inicialmente impulsionada pelo lado da oferta, sobretudo devido à alta dos preços da energia, acelerou com a invasão russa da Ucrânia. À medida que os preços a montante da cadeia de valor (matérias-primas industriais e energéticas, e produtos agrícolas), aumentavam depois da pandemia, a inflação foi-se generalizando a toda a economia. Hoje está gradualmente mais focada nos serviços e no final da cadeia produtiva, a jusante, corroborando uma inflação subjacente cada vez mais elevada. Entretanto, a inflação em Espanha e em França em fevereiro sinalizam uma crescente preocupação de uma inflação mais persistente na Europa, incluindo Portugal, indiciando também uma contínua alta dos juro pelo BCE, ameaçando o crescimento económico nos próximos semestres. Se a Europa conseguiu evitar uma recessão económica no inverno, menos rigoroso e que afastou os receios da escassez de gás natural, esta atual inflação elevada e persistente renova os receios de uma eventual recessão nos próximos tempos, resultante de uma alta das taxas de juro pelo BCE mais enérgica e mais duradoura do que anteriormente antecipada.

PMR In VE 1 de março 



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Licenciado em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto.